João
Soares Lisboa e o Correio do Rio de Janeiro
Em 1820, o Brasil vivia sob a
expectativa de sua independência em relação a Portugal, reforçada pelo fato de
que a metrópole estava em plena revolução portuguesa. A onda liberal que
atingia o país, porém, gerava um conflito entre duas idéias que, aparentemente,
são complementares: independência e liberdade. É justamente neste momento de
oposições de ideais e de complexidade política que o português João Soares
Lisboa pode ser tido como a maior figura da imprensa brasileira, como defende
Nelson Werneck Sodré.
Em 10 de
Abril de 1822, começava a circular o jornal Correio
do Rio de Janeiro, de Soares Lisboa, de caráter liberal e que
problematizava e defendia a liberdade, ao contrário de jornais como o Revérbero Constitucional Fluminense, que
destacava a independência. Através de seu jornal, Soares Lisboa foi o primeiro
a levantar a idéia da convocação de uma Assembléia Constituinte, adotada depois
por outros jornalistas, que mobilizou todo o país e a Corte.
De estilo
popular, o Correio foi o jornal mais radical do Rio de Janeiro. Teve
duas fases: a primeira foi de seu lançamento até 21 de outubro de 1822; a
segunda, escrita da prisão e em que estão aqueles considerados seus melhores
escritos, foi de 1o de agosto de
A
característica principal de Soares Lisboa, que fez dele a grande figura do
jornalismo no Brasil do século XIX, foi a sua capacidade de, com escrita
simples, ser um grande articulista, eficiente em sua argumentação, muito
respeitado e temido; um líder. Defensor supremo da liberdade, negou-se a
aceitar uma Constituição que, segundo ele, não fora elaborada por aqueles a
quem mais interessava: o povo. Por suas críticas ferrenhas à imprensa áulica e
principalmente ao governo de Dom Pedro I, Soares Lisboa foi preso e chegou a
ser condenado e expulso do país. Seus pensamentos, no entanto, sempre tão
coerentes, mantinham-se firmes na defesa da necessidade de uma Constituinte
para o Brasil.
Não é de se
espantar que seu jornal tenha sido logo suspenso, mas, mesmo da prisão, Soares
Lisboa não abriu mão de defender a Constituinte. Anistiado pelo imperador com a
condição de que saísse do país, em março de 1824 embarcou para a Europa. Na
parada no Recife, porém, decidiu ficar e aderiu ao que, posteriormente, seria a
Confederação do Equador. Lá, lançou o jornal Desengano do Brasileiros, que defendia o regime republicano. Soares
Lisboa pegou em armas, combateu nas ruas, mas não resistiu às forças opressoras
do império e morreu em uma emboscada em Pernambuco.
O
jornalista já estava no Brasil há 23 anos ao lançar o Correio e, por
isto, considerava-se um português-brasileiro, mais brasileiro do que português.
Não possuía formação em curso superior, era de condição social modesta e
algumas vezes chegava mesmo a cometer erros de português, razão pela qual foi
acusado por seus adversários de não ser o verdadeiro autor dos textos
publicados sob seu nome em seu jornal. Seus escritos, francos e diretos, febris
e apaixonados, eram por vezes ingênuos, e conquistaram muitos inimigos.
A
historiadora Isabel Lustosa, na biografia que escreveu de D. Pedro I, afirma
que Soares Lisboa foi o alvo principal do príncipe, em artigos escritos sob
pseudônimos em diversos jornais, nos quais ofendia o jornalista, tachando-o,
entre muitos outros insultos, de pedante, asno e maroto.
Frei
Caneca, em simples e precisa definição, explica a importância de João Soares
Lisboa para o movimento: “A Confederação do Equador não teve de certo
partidário mais leal do que João Soares Lisboa. Bateu-se pela Independência;
morreu pela liberdade”.