João Soares Lisboa e o Correio do Rio de Janeiro

 por Mariana Zapella


Em 1820, o Brasil vivia sob a expectativa de sua independência em relação a Portugal, reforçada pelo fato de que a metrópole estava em plena revolução portuguesa. A onda liberal que atingia o país, porém, gerava um conflito entre duas idéias que, aparentemente, são complementares: independência e liberdade. É justamente neste momento de oposições de ideais e de complexidade política que o português João Soares Lisboa pode ser tido como a maior figura da imprensa brasileira, como defende Nelson Werneck Sodré.

Em 10 de Abril de 1822, começava a circular o jornal Correio do Rio de Janeiro, de Soares Lisboa, de caráter liberal e que problematizava e defendia a liberdade, ao contrário de jornais como o Revérbero Constitucional Fluminense, que destacava a independência. Através de seu jornal, Soares Lisboa foi o primeiro a levantar a idéia da convocação de uma Assembléia Constituinte, adotada depois por outros jornalistas, que mobilizou todo o país e a Corte.

De estilo popular, o Correio foi o jornal mais radical do Rio de Janeiro. Teve duas fases: a primeira foi de seu lançamento até 21 de outubro de 1822; a segunda, escrita da prisão e em que estão aqueles considerados seus melhores escritos, foi de 1o de agosto de 1823 a 24 de novembro do mesmo ano. Em 24 de maio e em 31 de julho de 1823, foram lançadas edições extraordinárias.

A característica principal de Soares Lisboa, que fez dele a grande figura do jornalismo no Brasil do século XIX, foi a sua capacidade de, com escrita simples, ser um grande articulista, eficiente em sua argumentação, muito respeitado e temido; um líder. Defensor supremo da liberdade, negou-se a aceitar uma Constituição que, segundo ele, não fora elaborada por aqueles a quem mais interessava: o povo. Por suas críticas ferrenhas à imprensa áulica e principalmente ao governo de Dom Pedro I, Soares Lisboa foi preso e chegou a ser condenado e expulso do país. Seus pensamentos, no entanto, sempre tão coerentes, mantinham-se firmes na defesa da necessidade de uma Constituinte para o Brasil.

Não é de se espantar que seu jornal tenha sido logo suspenso, mas, mesmo da prisão, Soares Lisboa não abriu mão de defender a Constituinte. Anistiado pelo imperador com a condição de que saísse do país, em março de 1824 embarcou para a Europa. Na parada no Recife, porém, decidiu ficar e aderiu ao que, posteriormente, seria a Confederação do Equador. Lá, lançou o jornal Desengano do Brasileiros, que defendia o regime republicano. Soares Lisboa pegou em armas, combateu nas ruas, mas não resistiu às forças opressoras do império e morreu em uma emboscada em Pernambuco.

O jornalista já estava no Brasil há 23 anos ao lançar o Correio e, por isto, considerava-se um português-brasileiro, mais brasileiro do que português. Não possuía formação em curso superior, era de condição social modesta e algumas vezes chegava mesmo a cometer erros de português, razão pela qual foi acusado por seus adversários de não ser o verdadeiro autor dos textos publicados sob seu nome em seu jornal. Seus escritos, francos e diretos, febris e apaixonados, eram por vezes ingênuos, e conquistaram muitos inimigos.

A historiadora Isabel Lustosa, na biografia que escreveu de D. Pedro I, afirma que Soares Lisboa foi o alvo principal do príncipe, em artigos escritos sob pseudônimos em diversos jornais, nos quais ofendia o jornalista, tachando-o, entre muitos outros insultos, de pedante, asno e maroto.

Frei Caneca, em simples e precisa definição, explica a importância de João Soares Lisboa para o movimento: “A Confederação do Equador não teve de certo partidário mais leal do que João Soares Lisboa. Bateu-se pela Independência; morreu pela liberdade”.