Sem arrependimentos
Quando decidiu largar tudo para ser escritora, seus pais disseram que ela iria se arrepender. Onze anos, dez livros e alguns prêmios depois, Índigo está à vontade para dizer que dá, sim, para viver da escrita.
por Mariana Zapella
Aos 36
anos, a campineira Ana Cristina Araújo Ayer de Oliveira, apelidada Índigo, tem
uma prolífica carreira como escritora, mantém um blog-diário bastante visitado,
faz versões de livros clássicos e traduções e, eventualmente, trabalhos de
publicidade. Mas já pensou até mesmo em ser advogada, como a mãe.
Ainda
bem que desistiu. Ou não teríamos a chance de ler seus livros, narrativas
deliciosas, geralmente em primeira pessoa, e que não têm classificação etária
fácil. São obras para crianças? Adolescentes? Adultos? Esta dificuldade de “se ajustar”
a um perfil pré-definido já foi um problema para ela, mas, hoje, é uma das
características mais marcantes de sua literatura e não a preocupa mais. “Fui
ficando à vontade. Para isso existe a figura do editor, ele é que tem de saber
onde me encaixar!”, comenta, rindo.
Por
causa da profissão do pai, executivo de uma multinacional, Índigo mudou-se
muito. Foi alfabetizada na Inglaterra, em inglês, e tinha aulas de português
com a mãe, em casa. Mais tarde, já de volta ao Brasil, começou a cursar letras
na Unicamp. Foi quando o pai recebeu nova proposta de mudança, desta vez para
os Estados Unidos. Desanimada com a faculdade, Índigo resolveu acompanhá-lo.
Lá, em cinco anos, fez jornalismo, desiludiu-se disto também, casou-se,
separou-se e ganhou o apelido (ao trabalhar em um café com este nome, em que
chegou a ser gerente, em Mankato, Minnesota). Quando voltou, em 1995, virou
redatora de publicidade. Queria escrever, mas caiu num dilema. “Não sabia se
escrevia em inglês ou português”, conta. Então começou a publicar diariamente
seus textos na internet, em uma espécie de blog pré-histórico. Empolgou-se e
não parou mais. Além dos blogs que manteve e do que ainda escreve (O diário da Odalisca), escreveu e lançou
dez livros. O primeiro, Saga Animal,
saiu em 2001. Cobras em compota, sua
sexta obra, ganhou o prêmio Literatura para Todos, do MEC, e teve uma tiragem
de 300 mil exemplares, distribuídos em escolas públicas de todo o país. Um dálmata descontrolado, publicado no
ano passado, foi selecionado na Bolsa de Criação Literária do Programa de Ação
Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
Antes de
chegar neste ponto, precisando de trabalho e de dinheiro, mandou imprimir
quinhentos cartazes com os dizeres “contrate uma escritora”, para oferecer seus
préstimos literários. Com a ajuda de amigos, colou tudo pela cidade. Por causa
do gesto insólito, foi parar no Jô Soares e chegou a trabalhar como freelancer para a MTV e a Disney. “Aí
engrenou”, diz.
Moradora
da Vila Madalena, Índigo é metódica: diz que precisa acordar sozinha (e por isto
faz o namorado sair de casa antes que ela desperte) e só escreve na parte da
manhã. À tarde, revisa textos, trabalha em obras não-autorais, como traduções,
adaptações e versões de clássicos, e lê. Está encantada com a escritora
canadense Margaret Atwood, mas Simone de Beauvoir é a favorita de todos os
tempos. Faz kung fu – está se preparando para a prova da faixa verde –, cozinha
a própria comida e é freqüentadora assídua dos cinemas na região da Paulista. Até
bem pouco tempo atrás, não tinha televisão em casa.
Índigo
é magra e alta e fala baixo e pausadamente, com um resquício de sotaque do
interior de São Paulo. Quase não gesticula e chega mesmo a parecer tímida. Mas,
em seus livros, perde a timidez e se transforma em narradores fortes, ainda que
se trate de um bebê de poucos meses, como o Heitor de sua última obra, A maldição da moleira. Ela se diz
paciente e frisa que esta é uma qualidade das mais importantes para um
escritor. O processo da literatura, afinal, é bastante lento. “É uma profissão
para a vida inteira. Um livro, depois de escrito, leva anos para ser lançado. É
preciso ter uma postura muito tranqüila. Se você for ansioso, morre louco!”
Mais do
que outros autores, o que mais a inspira, conta, é música. “Adoro o Luiz Tatit
[da dupla infantil Palavra Cantada], a forma como ele brinca com as palavras é
incrível.” Mas Índigo escreve mesmo que a inspiração não venha. O blog, segundo
ela, é um ritual. “Se eu não escrevo sempre, é como se eu estivesse cometendo
um pecado, tenho que compensar no dia seguinte.” Em seguida, acrescenta que “o blog
é fundamental, quase uma obrigação para o escritor contemporâneo se tornar
conhecido”.
Para
ser escritora, ela diz que abdicou de tudo o que pôde em termos financeiros. Se
valeu a pena? “Claro”, Índigo responde, rindo. Apesar das dificuldades,
manteve-se positiva. “Para mim, não importava não ter dinheiro para a balada,
viajar no fim do ano ou comprar roupa. Eu só queria que desse certo. Acredito
que se você deseja muito uma coisa, a não ser que não tenha talento algum, a
tendência é que tudo corra bem.”
Pelo
menos para ela, as coisas parecem estar indo no caminho certo.