Histórias Que Se Contam Por Si

Em Hiroshima, o jornalista John Hersey narra, com um texto direto e sem adjetivações, a trajetória de seis sobreviventes da bomba atômica jogada sobre a cidade japonesa em 1945.

por Mariana Zapella


Passados mais de sessenta anos desde que a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima, a cidade japonesa ainda é lembrada pela tragédia daquele 6 de agosto de 1945. O número de vítimas é incerto, mas contou-se às centenas de milhares. Poucos dos que vivenciaram aquele horror ainda estão vivos.

Em Hiroshima, o jornalista John Hersey, filho de missionários norte-americanos nascido na China, relata as trajetórias pessoais, desde momentos antes da explosão, de seis hibakushas, como eram chamados os que vivenciaram o acontecimento. A longa reportagem foi publicada em agosto de 1946 pela revista norte-americana The New Yorker, e complementada quarenta anos depois do ocorrido, dando origem ao livro em questão. Naquela edição, a revista abriu mão dos demais artigos e de suas conhecidas e tradicionais tirinhas para publicar somente a matéria escrita por Hersey. O editor se dirigiu aos leitores para explicar o enorme espaço dedicado à reportagem, argumentando que poucos eram os que realmente entendiam o incrível poder destrutivo daquela arma [a bomba atômica] e suas terríveis implicações. O impacto foi tremendo. A revista se esgotou em questão de horas e o texto foi comentado, analisado e criticado por muitos outros veículos, tendo sido republicado por revistas e jornais diversos e chegando mesmo a ser lido no rádio.

Hersey ajudou a dar rosto a vítimas de uma das maiores catástrofes provocadas por mãos humanas de forma tão rápida. Através de um jovem cirurgião da Cruz Vermelha, uma dona de casa viúva, uma funcionária de fábrica, um pastor da Igreja Metodista, um médico experiente e rico e, por fim, um padre jesuíta alemão, ficamos sabendo como foi o momento da explosão e de que forma a bomba afetou a vida e a saúde daqueles personagens e de milhares de tantos outros hibakushas. O destino de cada um deles foi drasticamente alterado por uma explosão que durou poucos segundos e deixou uma herança terrível, mudando para sempre a maneira como levariam suas vidas. Quarenta anos mais tarde, o jornalista voltou a falar com os sobreviventes, comprovando que os efeitos da radiação foram bem mais nefastos do que se imaginava à época em que ela foi lançada sobre os japoneses (ou pelo menos é o que se supõe).

O tom utilizado por Hersey, ao contrário do que seria de se presumir diante da magnitude do acontecimento, não é dramático. O autor consegue, assim, a proeza de, sem ser frio ou permanecer distante, contar histórias que, se fossem relatadas por outros, possivelmente viriam carregadas de emoção. Não que o que se narra não seja penoso ou digno de comoção. Mas Hersey deixou que as histórias se contassem por si só, sem abusar dos adjetivos, e é o que basta.