Perfil: Frei Gilberto

por Mariana Zapella, Ligia Gauri, Lidiane Ferreira, Gabriel Carneiro e Felipe Vilasanchez

 

Frei Gilberto é um homem tranqüilo. Aos 54 anos, está há 26 na vida religiosa e afirma sem hesitar que nunca pensou em desistir do sacerdócio, embora assuma ter passado por momentos desanimadores.

O paulistano da Aclimação Gilberto Marcos Cecílio Piscinelli decidiu ser padre aos 18 anos. “Eu vi que teria de fazer alguma coisa de útil, de bom, em termos de serviço.” Decidiu-se pela vida de frei franciscano, no que foi apoiado incondicionalmente pelos pais, católicos devotos. Mas afirma que, ainda que não tivesse recebido apoio tão importante, não teria desistido. “Eu já havia tomado a decisão, e mesmo que não me apoiassem, me tornaria padre.” Antes de entrar pro seminário, teve relacionamentos com mulheres, “duas ou três”, mas depois disto diz que tem mantido uma “vida digna, no sentido de ser fiel àquilo que prometi. Se você não for fiel, não tem sentido a vida religiosa,  os votos de pobreza, de obediência e de castidade”.

Convivendo com o catolicismo desde criança, Frei Gilberto acha que ter fé é “acreditar em alguma coisa, ainda que essa alguma coisa seja difícil ou quase impossível de se alcançar. Como diz o próprio Evangelho, a fé remove montanhas. Eu creio que cada um de nós, como ser humano, necessita de uma religião, que é uma ligação com um elo superior, que é Deus. Não importa se o sujeito é budista, se ele é protestante, católico, cristão ou não-cristão. O importante é que tenha a fé, a crença num Deus”, acrescentando que “todos buscam a Deus como um ser superior na tentativa de alcançar a felicidade. O muçulmano, o hinduísta, seja lá quem for, ele faz a mesma coisa, buscando a Deus. De uma forma diferente, com expressões diferentes, conforme a cultura de cada povo, mas tenho certeza de que com o mesmo objetivo”.

A religião, é claro, tem um papel fundamental em sua vida, e ele acha muito importante a função que tem. “É muito significativo ter de tranformar o Evangelho em vida prática, trazer o que está escrito nas Sagradas Escrituras para os nossos dias”, diz o frei. Entre os rituais da Igreja Católica que considera mais importantes, está a “celebração eucarística, a Quinta-feira Santa, quando Jesus instituiu a eucaristia dando pão e vinho aos seus discípulos, que era a ceia”, e acredita ser muito importante a distribuição de pão toda terça-feira por alguns conventos, como forma de reforçar esta idéia.

E será que um homem como ele, com tantos anos de sacerdócio, já pecou? “Pequei. Como todo ser humano. Eu sou humano, então eu também peco”, afirmando em seguida que “o importante é rever o pecado”, entendê-lo e pedir perdão pelo erro. “Se um padre sentir necessidade, ele conversa com outro padre sobre isso”, diz.

Fre Gilberto não foge de perguntas que poderiam embaraçar um membro do clero. Perguntado se não considera um retrocesso a posição da Igreja ao proibir o uso da camisinha, o frei, primeiramente, questinou se a entrevista seria publicada. Ao ser informado de que isto não aconteceria, disse que acha, sim, uma posição retrógrada. “É a minha opinião pessoal”, disse ele, esclarecendo que o que está dizendo poderia comprometê-lo se fosse realmente publicado. Com a avanço da contaminação por doenças sexualmente transmissíveis, como a AIDS, ele diz que a camisinha é “um mal menor”. Ele é contra a promiscuidade, no entanto. “Você quer namorar e ter relação com seu namorado, tudo bem, quem é alguém para dizer se você deve ou não deve? Vocês dois é que têm de resolver. Só que precisa haver fidelidade. Se você ama de fato, então fique com aquele que você ama, seja fiel.”

Questionado sobre como os padres lidam com o desejo sexual, tão natural nos seres humanos, ele diz que é algo que se aprende a dominar, “como se domina qualquer coisa na vida. O ser humano tem uma capacidade mental e intelectual muito grande de viver nas mais variadas situações, muito frio, muito calor. E os diabéticos que não podem comer chocolate? Eles se adaptam. É a mesmas coisa com o desejo sexual. Se você ficar pensando só em sexo, só em desejo, é lógico que você vai ter problema e vai tentar chegar às vias de fato. Agora, se você conseguir olhar pra pessoa, pro ser humano que está com você, uma moça, uma senhora, seja lá quem for, não pensando no sexo, mas pensando como um ser humano com quem você está se relacionando, numa conversa, num diálogo, num trabalho que você está realizando, esse desejo vai ser amenizado e você vai conseguir adaptar isso dentro da sua vida normalmente”. E termina dizendo que “o grande problema é quando você reprime o sentimento, quando você esconde, foge, não dá a mão para uma pessoa porque é mulher, não quer chegar perto, não pode ver mulher porque é bonita ou coisa parecida. Nós temos de viver normalmente, só que conscientemente daquilo que se está fazendo”.

Em relação à castidade, ele frisa que isto não é apenas “deixar de manter relação sexual. É o modo de pensar, de olhar, de agir. É um contexto em que você espontaneamente se coloca e não tem a necessidade de manter relação sexual porque outras coisas suprem isso na sua vida. Tem a oração, a leitura, a fraternidade, a alegria da comunidade. A sua vida é prenchida no todo e não existe uma lacuna em aberto para isso”. Frei Gilberto, é claro, é contra a pedofilia, quer envolva padres ou não-padres. “A pedofilia distorce completamente a caminhada de uma criança, e acaba destruindo a vida desta pessoa, porque as marcas são para sempre, pro resto da vida, como acontece também com os casos de abuso sexual, pai que abusa de criança, por exemplo”.

Para terminar a entrevista, o frei se diz realizado através da religião. “A palavra já está dizendo: religare. É uma ligação nossa com Deus. Quando você consegue encontrar em Deus um ser superior, independente da religião, nem precisa ser especificamente católica, eu acredito que o ser humano se realiza.”

Sem dúvida alguma, Frei Gilberto é um homem tranqüilo.