Dona Pequena
por Mariana Zapella
Dona Pequena está triste. Com o velho álbum de fotografias nas mãos, mostra pela quarta vez a imagem do filho mais novo, que faleceu no começo do ano. Adilson tinha apenas 53 anos e não aguentou o ataque no coração. Morreu a caminho do hospital, deixando três filhos e uma esposa que agora não quer mais contato com a família do marido.
Guiomar Lopes nasceu em Itiúba, nordeste da Bahia, em 1925. Mais velha entre sete irmãos, dos quais apenas cinco sobreviveram à infância, perdeu a mãe cedo, de febre tifóide, quando esta tinha apenas 35 anos e Guiomar, 13. O pai ficou viúvo e não levava jeito com os filhos; a mais velha, então, assumiu o lugar da mãe na criação dos menores, entre os quais um bebê de dez meses. Cuidava das crianças e do pai o dia todo: cozinhava e dava de comer, fazia a limpeza da casa, lavava as roupas, ia buscar água. A escola ela abandonara aos nove anos, depois de aprender a ler e a escrever, prática comum por ali. Não havia na cidade onde cursar o ginásio, e seus pais não tinham interesse – ou condições financeiras – de mandá-la para tudar fora, em outra cidade. “Naquele tempo não tinha precisão de nada, era só para não ser muito ignorante que a gente aprendia as letras. Mas foi bom, eu gostava de ir pra escola, fiquei triste quando acabou.”
Itiúba tem hoje pouco menos de 40 mil habitantes. Dona Guiomar não sabe dizer quantos eram quando estava por lá, “mas era um lugar pequenininho demais, calmo, bonito, a gente conhecia tudo, era tão bom. As coisas lá não mudaram tanto como aqui em São Paulo, mas está bem diferente, tem uns computadores, mais carros, umas coisas mais modernas”. A cidade vive da pecuária e da extração de minério de ferro e cromo. Segundo se conta por lá, Itiúba, pela sua geografia, espantou Lampião. Localizada, nas palavras de Dona Guiomar, “num vale no meio de um monte de montanhas” e com apenas três saídas possíveis, o cangaceiro percebeu que ali poderia sofrer uma emboscada e deu meia volta. Teria apenas pedido pra um morador, que passava pelo local, para comprar cigarros para ele. Depois, montou em seu cavalo e enfiou-se mato adentro, para longe de Itiúba.
“No meu tempo, não tinha hospital lá. Quem morava em fazenda se comunicava com berrante, até pra pedir ajuda. Lembro do meu pai dizendo que ia sair depois de ouvir aquele barulho, porque alguém estava doente e tinha que ser levado até a cidade mais perto [Dona Guiomar não se recordava do nome, o que a deixou bastante chateada]. Eles botavam a pessoa em uma rede de pano, amarravam o pano num pau e iam carregando, um homem em cada ponta, os outros de cavalo atrás. A viagem durava mais de dois dias, à pé, e os homens iam se revezando pra carregar o doente. Muitas vezes, chegavam lá e a pessoa já tinha até morrido. Era sempre assim, ninguém achava ruim, não.”
Aos 16 anos, Dona Guiomar começou a namorar Vital Alves dos Santos, da mesma idade. Com o olhar perdido, ela diz que sempre fora apaixonada por ele, “mesmo sabendo que ele não tinha um pingo de decência”. Vital era vizinho de Guiomar desde sempre, e a paixão, aparentemente, era recíproca. Trocaram muitos olhares até o garoto resolver conversar com Seu João, pai da moça. O namoro era comportado, sempre sob as vistas do pai ou dos irmãos mais novos de Guiomar. Eram os anos 40, afinal. “Ah, ele só pegava mesmo na minha mão. Hoje eu vejo gente se beijando no meio da rua, os homens agarrando as mulheres e elas deixam, eu estranho. Eu sei que mudou tudo, eu fico tentando acompanhar as mudanças para não ficar parecendo velha demais pros jovens, mas é esquisito, né?”
Dois anos depois, “tempo demais naquela época; o povo namorava, noivava e casava em menos tempo quando eu era jovem”, casaram-se sob a benção de um padre católico, numa comemoração bastante simples. Até porque os noivos eram pobres demais e não podiam fazer a festa que gostariam. Dona Guiomar jurou fidelidade ao marido e assim permanece até hoje, mesmo sabendo que foi traída inúmeras vezes com diferentes mulheres e mesmo tendo sido abandonada por Seu Vital aos quase setenta anos, quando ele resolveu “aproveitar a vida, aquele velho safado”.
Com Seu Vital, Dona Guiomar teve seis filhos: Antônio, o mais velho, tem 62 anos, nove a mais do que Adilson, que faleceu no início do ano aos 53. Os demais são, em ordem de nascimento, Efigênia, Álvaro, Elenita e Magnólia. Quando estava grávida do primogênito, o marido, esperançoso de ganhar mais dinheiro, foi para São Paulo tentar a vida. Voltava para a Bahia uma ou duas vezes ao ano, e quando ia embora deixava mais um filho para a esposa cuidar. Durante a gravidez do caçula, ela não agüentou mais: largou tudo, pegou os filhos e dois irmãos e foi atrás do seu amor. Deixou para trás os demais irmãos ainda pequenos, que ficaram com uma tia, com a promessa de voltar para buscá-los. A jura foi cumprida aos poucos, e em alguns anos todos estavam estabelecidos na zona leste da capital paulista.
Ao chegar a São Paulo, em 1945, Seu Vital conseguiu emprego nas Indústrias Matarazzo, onde hoje é o bairro de Ermelino Matarazzo, na divisa de São Paulo com a cidade de Guarulhos. Era ajudante geral, já que não possuía qualificação para almejar um dos postos de trabalho na área química, em que a empresa era especializada. “Era uma empresa enorme, meu marido sempre dizia que o dono era muito rico. Depois deram até o nome de um parente dele pro bairro. Mesmo assim, pagavam muito pouco pro Vital, era uma exploração danada, coisa horrível.”
Dona Guiomar chegou em 1953, grávida e acompanhada de sete crianças. “Meu marido trabalhava o dia todo e o dinheiro não dava, era gente demais. A gente começou a passar necessidade, eu fui ficando desesperada.” Antes de morrer, a mãe havia lhe ensinado a costurar. Como não podia trabalhar fora por conta dos filhos e irmãos mais novos, teve de se virar. Com uma máquina velha que conseguiu com conhecidos, Dona Guiomar começou a costurar e a oferecer seus serviços. Logo, estava ajudando o marido nas despesas de casa, o que deu uma aliviada pequena, mas importante, nas contas da família.
Mais tarde, as crianças já criadas, a costureira foi para uma oficina de costura. “Ah, isso aí tem até hoje, viu? Eles exploram demais as mulheres lá dentro, sabia?”, pergunta, indignada. Mas o salário era melhor e garantido e por isso ela foi ficando. Trabalhou por mais de vinte anos, em diversas oficinas. Tem calos nos dedos até hoje, e mostra isso orgulhosa. De início, Seu Vital não gostou de ter uma esposa trabalhando. Mas a necessidade obrigou-o a engolir o orgulho masculino e ele teve de aceitar. Por fim, estava até incentivando a mulher a pegar mais trabalhos para fazer nas horas livres.
Dona Guiomar já trabalhou também na Penedo (fábrica de panelas) e no Carrefour, em ambos como faxineira. Confunde as datas, não saber dizer quando entrou e quando saiu de cada lugar. Levanta-se da cadeira para pegar a Carteira de Trabalho, e só então se lembra de que seus documentos antigos estão numa caixa cheia de “coisa velha, com cheiro de mofo”, na casa da filha Magnólia, a Magui. “Aqui nessa casa não cabe, é pequeno. Mas está bom, eu não reclamo, sabe? Trabalhei tanto nessa vida e não consegui comprar uma casa minha, mas pelo menos criei filhos que conseguiram alguma coisinha por aí e hoje me ajudam.”
Ainda morando em Ermelino Matarazzo, de onde nunca mais saiu, Dona Guiomar vive nos fundos da pequena casa de seu filho Álvaro. Na realidade, a dona de tudo é a filha Elenita, conhecida por Lita. Ela aluga a parte da frente para o irmão e deixa que a mãe more nos fundos, numa construção de cozinha, quarto e banheiro apertado. Lita mora em São Bernardo do Campo e vai visitar Dona Guiomar quase todo final de semana. “Hoje os filhos crescem sem esse negócio de família, é cada um para um canto. Eu gosto dos meus por perto, os netos, os bisnetos, todo mundo. Não é porque sou pobre, não tenho nada pra dar para eles, que eles vão ficar longe de mim. Pode me chamar de velha, de antiga. Eu não ligo.”
Dona Guiomar diz que o bairro mudou drasticamente desde que lá chegou pela primeira vez, mas frisa que isso não significa que as mudanças foram ruins. “Nossa, São Paulo cresceu demais, não dá mais pra imaginar que a gente pegava bonde não faz tanto tempo assim. Aqui em Ermelino não tinha asfalto, era tudo terra, um monte de lugar vazio, você olhava e só via mato, mato, mato. Agora, olha como ficou! Eu cheguei aqui bem antes de todo o comércio, dos ônibus, do asfalto, de tudo isso. Agora é bem melhor, né? Tem de tudo, eu nunca preciso pegar ônibus para sair do bairro, faço tudo aqui mesmo. Assim que é bom.”
Há aproximadamente quinze anos, Seu Vital largou a esposa. Pelos olhos de Dona Guiomar, vê-se que o amor, pelo menos por parte dela, permanece. Foi o único homem de sua vida, ela nunca pensou em ter mais ninguém. Aposentado, Seu Vital abriu um modesto salão no mesmo bairro, em que trabalha de barbeiro. Segundo Dona Guiomar, ele não aceita cortar cabelos ou chamar alguém para a função no salão por ser muito machista. Não se casou novamente, mas “engraçou-se” com uma mulher e teve com ela uma filha, que hoje tem 13 anos. “Ele se orgulha todo disso, é muito safado”, diz com certa mágoa, mas, ao mesmo tempo, achando graça da situação. Hoje, Seu Vital está solteiro, pelo que Dona Guiomar ouviu falar pelo bairro. Aceitaria o marido, de quem nunca se separou judicialmente, de volta? “De jeito nenhum”, responde, desviando o olhar. “Estou velha demais para essas coisas.”
Além de morar “de favor” e de receber uma aposentadoria por idade, Dona Guiomar tem uma pequena ajuda da filha Magui. Diz que com o que ganha consegue se sustentar na casinha simples porque é uma “pessoa sem frescura. Nasci no sertão da Bahia!”, e ainda sobra um pouco para ajudar os parentes que precisam. “Nunca foi fácil achar emprego, mas agora está difícil demais! As pessoas fazem faculdade e nem assim conseguem alguma coisa! Minhas netas estão se formando, você pensa que elas vão fazer o quê? Já falei, fazer faculdade é muito bonito, mas não adianta no mundo de hoje! As pessoas têm que ter sorte hoje em dia. Lá em Itiúba, no meu tempo, nunca conheci ninguém que fez faculdade. Agora, estão todos formados, tem até médico, pelo que me disseram.”
E a saúde? Ela diz que tem um problema de estômago, mas não sabe especificar do que se trata. Deveria seguir uma dieta restrita, cortar gorduras e alimentos ácidos, só que acaba se esquecendo disso e come de tudo. Quando lembra, já está passando mal. Foi internada algumas vezes por conta do problema, “numa das vezes eu quase morri, até reuniram os parentes”, mas está aí, firme e forte.
Dona Guiomar não sente falta do passado. Acha que o mundo piorou muito. “Essa violência, um monte de guerras, gente morrendo, essa pouca-vergonha, tanta miséria no mundo, fico indignada e não posso fazer nada”, mas, por outro lado, reconhece que, hoje, apesar de tudo, a vida é melhor. “Médicos, hospitais, tudo isso. Se fosse hoje, minha mãe não ia ter morrido tão novinha, era só levar pro hospital que eles curavam a doença. Nem tem mais esse negócio de febre tifóide, não é? Imagina, que coisa maravilhosa! Eu mesma só estou viva por causa dessas coisas, na Bahia eu já teria morrido há um tempão.”
Olhando o álbum amarelado, Dona Guiomar vai mostrando todos os retratados que já morreram. São muitos. Pais, tios, irmãos, amigos, o filho. Com lágrimas nos olhos, diz que neste ano enterrou cinco pessoas além de Adilson: uma irmã, uma tia e dois primos. “A gente vai ficando velho e todo mundo morre. Eu devia achar normal, mas não consigo. Não tenho medo da morte, tenho respeito por ela, mas quando acontece com gente que eu conheço eu nunca sei o que fazer.”
Ela não esconde que gostaria de ter tido uma vida diferente. Diferente como? “Ah, ter mais oportunidade, ter estudado mais, queria ser pintora, fazer uns quadros bem grandes de paisagem, de montanha. De qualquer jeito, eu vivi uma vida tão boa, não posso reclamar de nada. Conheci tanta gente que me ajudou, sempre tive saúde pra fazer de tudo: ter meus filhos, cuidar deles e dos meus irmãos, trabalhar, cuidar dos netos, dos bisnetos...” Mais uma vez, olha o filho caçula falecido antes dela no álbum despedaçado e chora. “Queria ter morrido antes dele, não podia existir isso de mãe enterrar filho adulto.” O neto André chega, pega o álbum das mãos enrugadas e miúdas da avó, comenta que “ela não larga desse álbum, e aqui só tem fotos de gente bem mais velha” e promete que vai arranjar outro, novo, para colocar as fotos, “já que ela mexe nisso o tempo todo, vamos deixar bem bonito, ela merece”.
Dona Guiomar é miúda, baixa estatura, magra. Por isso, ganhou de André, filho de seu primogênito, Antônio, o apelido de Dona Pequena. Diz que não gosta da brincadeira, mas fala isso com um sorriso nos lábios. O apelido assenta-lhe bem, no entanto. Ainda com o velho álbum nas mãos, sorri e fala que “esse negócio de tirar ruga é coisa de gente que tem dinheiro e muita frescura. Eu gosto, isso aqui mostra cada coisa que já enfrentei nessa vida”, diz, apontando pro rosto moreno e enrugado.
É, Dona Pequena, a senhora tem toda razão.