Abaixo de Tudo
Escrito por jornalista alemão há mais de vinte anos, livro retrata a escabrosa situação de imigrantes pobres numa Alemanha que se julgava então superior e imune a tal espécie de problema
por Mariana Zapella
Publicado na Alemanha em 1985, Cabeça de Turco mexeu com a sociedade alemã ao escancarar ao mundo a maneira como são tratados os imigrantes turcos que vivem ali. O título original, Ganz unter, poderia ser traduzido por “abaixo de tudo” e retrata fielmente a posição que o personagem criado e vivenciado pelo autor ocupava na escala social daquele país.
Para poder relatar a situação, o jornalista Günter Wallraff teve de se disfarçar. Decidiu viver como Ali Sinirlioglu, um imigrante pobre, nascido na Turquia, sem grandes conhecimentos da língua alemã e disposto a qualquer trabalho para sobreviver longe de casa. Wallraff não precisou de muito para alterar sua aparência e tornar-se um turco. Com um documento que pertencia a um estrangeiro verdadeiro, uma peruca preta, lentes escuras e um sotaque forçado já estava na pele do personagem. Sua atitude como Ali era a de alguém deslocado e sem a exata noção do que se passava consigo. A vítima perfeita, portanto, para empresários inescrupulosos que buscavam apenas mão-de-obra barata e descartável para serviços que trabalhadores alemães não queriam realizar. O preconceito dos nativos contra estrangeiros pobres como Ali era o que Wallraff queria mostrar ao mundo, a ferida que ele pretendia cutucar em uma sociedade que se considerava acima deste tipo de problema.
Foram dois
anos (sobre)vivendo como um turco. Através de Ali, Wallraff submeteu-se a experiências
que, como um jornalista alemão, nunca teria sequer presenciado, embora fossem fatos
correntes no submundo daquela sociedade. Foi pintor, tocador de realejo,
pedreiro, operário, motorista: todos empregos dignos, mas que, diante da
suposta nacionalidade do trabalhador, fizeram-no passar por situações de
humilhação extrema. Foi rebaixado, xingado, menosprezado; recebeu salários
aviltantes pelo exercício de funções sujas e perigosas, que colocaram em risco
sua saúde e sua vida. Tentou também obter o batismo na Igreja Católica, e,
mesmo demonstrando enorme conhecimento da Bíblia e respeito pelos preceitos e dogmas
católicos, foi humilhado por muitos daqueles que, até por dever de ofício,
deveriam acolhê-lo.
Cabeça de Turco vendeu milhares de exemplares quando foi lançado na Alemanha e rendeu ao autor, além de muitos elogios e outras tantas críticas, diversos processos judiciais. Empresários e empresas denunciados na obra também foram alvo de ações na justiça. O controvertido método utilizado por Wallraff para evidenciar o problema foi e continua sendo bastante criticado. Afinal, ele deliberadamente provocou muitas das reações descritas no livro, interferindo na realidade que queria expor e tornando-se mesmo objeto dela. Não é exatamente a técnica de apuração que jornalistas aprendem na faculdade, mas, num caso tão escabroso, há de se pesar a importância de seus relatos, que de outra forma poderiam jamais tornar-se públicos. Eram “segredos” que precisavam realmente vir à tona, acontecimentos que mereciam ser expostos à opinião pública para então terem chance de, tornando-se pauta de grandes jornais e preocupação de políticos, ser combatidos e reprimidos. Neste sentido, Günter Wallraff agiu brilhantemente e não merece repreensões.