O fetiche do vinil

por Mariana Zapella


Mil e quinhentos reais por um disco de vinil? Na Baratos Afins, uma das maiores e mais conhecidas lojas de vinis de São Paulo, é isso que custa um disco da banda Brazilian Octopus. E tem quem pague. “É uma raridade, vale muito. Quem faz o preço é o colecionador. Quanto maior a dificuldade em achar um disco, maior é o valor que ele alcança”, ressalta Juliano Peleteiro, 34 anos, há três trabalhando na loja. O mesmo disco foi lançado recentemente em CD e custa menos de dez reais no Submarino. Por que, então, alguém pagaria tal valor por algo que pode ser obtido por muito, muito menos? Peleteiro responde rápido: “O vinil é um fetiche”.

A loja está comemorando trinta anos. Em 1978, o proprietário, Luiz Calanca, abandonou a profissão de farmacêutico para vender sua própria coleção em caixotes de madeira, na Galeria do Rock, no centro da cidade. Precisava criar a filha recém-nascida. O negócio deu certo. Hoje, são cerca de cem mil títulos em vinil, novos e usados, e outros vinte mil em CD, distribuídos num abarrotado – porém organizado – espaço de 68 metros quadrados no segundo andar da mesma galeria. Títulos repetidos e produtos encalhados ficam guardados em depósitos.

A Baratos Afins trabalha com a maioria dos gêneros musicais, exceto rap e eletrônica. O enorme acervo nunca foi digitalizado; conta-se apenas com a prodigiosa memória dos vendedores para se encontrar algo específico. Pelo mesmo motivo, ninguém sabe dizer quantos discos são vendidos por mês. Os artistas mais procurados pelos fãs do vinil são Pink Floyd, Led Zeppelin, Caetano Veloso, Mutantes. Além do valiosíssimo Brazilian Octopus, outras raridades, como um LP do Tim Maia Racional (R$ 350, “bem detonado”, segundo Peleteiro), são encontradas ali. Duram pouco, dizem os vendedores. E quem encalha nas prateleiras? “Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso. Devem ganhar dinheiro com shows, porque aqui eles não vendem nada”, comenta, rindo, Sebastião Calanca, 51 anos, irmão de Luiz, que trabalha na loja desde a abertura do negócio.

Não são só os colecionadores que freqüentam a Baratos Afins. Os vendedores garantem que tipos variados aparecem por lá, atrás de um disco raro, de algo mais comum ou, até mesmo, de um CD, formato ao qual tiveram de se render para ajudar a fechar as contas no fim do mês. Ainda assim, Peleteiro afirma que a maior parte das vendas é de discos em vinil, embora ele não saiba dizer números. Segundo ele, o CD “não pegou” porque o fã conheceu o artista em vinil e se apegou ao formato. E os jovens? “Eles preferem MP3. Muitos até aprendem a apreciar e comprar vinil, mas é só para guardar, porque esses nem toca-discos têm.”

Muitas vezes, artistas aparecem atrás de álbuns próprios. “O Zé Ramalho veio aqui procurar um disco dele porque não tinha mais cópias e a master tinha se perdido em uma enchente”, lembra Sebastião.

São entre vinte e trinta clientes por dia em dias úteis. Nos finais de semana, o movimento aumenta, mas, muitas vezes, a maior parte é de pessoas que vão até lá apenas para vender discos. “É assim mesmo, nós compramos muito mais coisa do que conseguimos vender”, fala Sebastião, desanimado. “E vendemos cada vez menos.”

Há LPs a partir de R$ 2,50, mas mesmo este preço é negociável. Os atendentes são solícitos e conhecem o assunto. Por tudo isso, a loja é uma ótima opção para colecionadores ou para quem deseja apenas “fuçar” em discos novos e antigos.

 

Serviço: A Baratos Afins fica na Galeria do Rock, lojas 314/318. Av. São João, 439, r. 24 de Maio, 62.